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terça-feira, 29 de maio de 2012

Vai-e-vai



Dor me fez partir, desconforto me diz pra voltar.
Há lágrimas por vir e há sonhos por confessar.
Nada de indiferença, ou imparcialidade.
Não há lugar pra mentira no sofrimento de verdade.

Com asas imensas nas costas, sem vontade de voar.
Pois voo solo e caminhada estão no mesmo patamar.
Pergunto-me o que essa liberdade me possibilita fazer,
Se a concessão espontânea faz parte do meu ser.

Sem saber ao certo se é bênção ou maldição
a bizarra necessidade da abnegação,
Me volto para o passado e chego á conclusão
Que por vezes foi o orgulho que me fez dizer um "não".

Orgulho me fez partir, humildade me diz pra voltar
Mas é fácil ser humilde sem recursos pra ostentar.
Pois se bem me lembro, me disseram certa vez
Que nunca me foi pedido, metade daquilo que dei.

Hipersensibilidade


Carência é um estado emocional que altera as dimensões dos estímulos emocionais que nos movem. Ela distorce de uma maneira superlativa a maneira como percebemos sentimentos, tantos nosso, quanto alheios. Talvez a principal característica dessa distorção seja o aumento da nossa sensibilidade á simpatia alheia. A escassez de carinho, afeto e contato emocional com outras pessoas parece maximizar a nossa predisposição para perceber os mesmos.

É como a fome que aguça o olfato e o paladar, fazendo com que a mera visão do alimento ou seu cheiro nos deixe com água na boca, você pode até estar perfeitamente ciente da qualidade do prato, mas não consegue evitar desejá-lo.

Por um lado, a hipersensibilidade é um estado que nos dá a oportunidade de dar um pouco mais de valor para os recursos que desprezamos quando temos em abundância, e desprezar o abundante é bastante comum do ser humano, muitos filósofos antigos já sabiam que nós temos uma tendência a valorizar aquilo que nos falta.

Mas por outro lado, responder ao menor estímulo gera um risco de auto-sabotagem muito grande, pois aumenta as chances de uma reação exagerada á um estimulo simples. O mais comum engano do carente é achar que toda a oferta é vantajosa, que todo o produto é de boa qualidade, que todas as pessoas são virtuosas. Se a fome é o melhor tempero para comida a carência é a melhor lente para se olhar pessoas e situações. E sabe-se que a receita básica do sofrimento é a frustração de expectativas.

Mas esses são meros acidentes de percurso, o hipersensível vai ter que tomar cuidado também com os manipuladores emocionais que encontramos no caminho. Pois é de conhecimento geral que os golpes, chantagens e traições encontram muito mais respaldo naqueles que estão frágeis, inseguros e desesperados. Afinal, como passar um vírus de computador para uma pessoa que não o usa? Como vender um lote irregular para uma pessoa que já tem casa própria?
Não, a coerção emocional não acontece com os prósperos, a extorsão e a chantagem não afetam aqueles que não precisam negociar, é na hipersensibilidade daquele que não tem o que quer que se aplica o golpe.

Manteremos nossos olhos abertos o suficiente para esses momentos? Estaremos realmente preparados para  escapar das nossas próprias armadilhas? Ou será que quando nos damos conta, a hipersensibilidade ja´está agindo, e nos fazendo dar extrema importância para algo que, na verdade...

...nunca foi tão importante?

terça-feira, 8 de maio de 2012

A vítima



Na eterna manutenção das nossas relações interpessoais, há momentos de turbulência e momentos de calmaria. A vida é uma sucessão heterogênea de humores, amores e desamores. Nos momentos difíceis, dizem-nos que devemos ser resilientes, que devemos ser fortes e persistentes para carregar o fardo de ser um ser humano suscetível á oscilações emocionais. Mas nosso ego está sempre lá, complicando o simples, acrescentando necessidades contra-intuitivas ás nossas carências. E é exatamente na hora da fraqueza que o ego acaba fazendo você passar de um lutador sobrevivente, para vítima.

O papel de vítima é infinitamente mais confortável, pois a vítima não carrega responsabilidade sobre seu infortúnio. Ela não é a culpada pelas desventuras consigo ocorridas e por isso tem apenas receber as condolências alheias enquanto chora no ombro de alguém que lhe sussurra ao ouvido que tudo vai acabar bem. Pois nosso ego diminui a nossa capacidade de nos auto-motivar, de nos auto-medicar emocionalmente. Ele transfere o poder de nossa recuperação para terceiros, quase que obrigando-os a prestar sua incondicional solidariedade ao nosso sofrimento que, diga-se de passagem, é muitas vezes causado por nós mesmos.

É como se repetíssemos; "Não é o suficiente eu tentar me animar. ALGUÉM tem que tentar me animar, mesmo que eu não esteja disposto a ser animado."

É natural passar por fazes de privação e escassez emocional que disparem esse tipo de dispositivo dentro de nós. Este é o momento em que as pessoas elegem os encarregados pela sua auto-imagem, auto-estima e amor-próprio e grudam neles até que a tempestade passe. Ninguém tem culpa desse fenômeno ser prejudicial, tanto para quem pede por ajuda quanto para quem a concede. Somos seres humanos e, como humanos, estamos sujeitos ás distorções que nosso ego causa em nossas vidas. Mas o grito da vítima é talvez a maior denúncia de nossas verdadeiras fraquezas, de nossas inabilidade em aplicar auto-motivação para sair de situações difíceis e principalmente, a prova irrefutável de que somos todos animais sociais, inevitavelmente dependentes da qualidade que as nossas relações com os outros possuem.

Mas se o grito demonstra força ou fraqueza... se a súplica pela cooperação na manutenção de nosso ânimo é um sinal de aceitação ou de negação... se a necessidade de ver nossas qualidade enaltecidas e nossos defeitos maquiados para melhor suportar momentos de crise é algo de se ter vergonha ou orgulho...

...isso me parece ser uma questão inteiramente individual.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Maquiagem e mentiras



A mentira está para os homens assim como a maquiagem está para as mulheres, disfarça imperfeições que estão ali mas ninguém quer ver, algumas vezes são perceptíveis, mas o contrato social que fazemos uns com os outros nos diz que devemos deixar essas coisas para lá e aceitar os pequenos corretivos que as pessoas aplicam em si mesmas para serem melhor aceitas na sociedade.

Todos nós, no fundo, sabemos que aquelas capas de revista não são exatamente daquele jeito, que aquelas grandes estrelas de hollywood não acordam com base, sombra, delineador e escovinha. Quem entende pelo menos um pouco do universo feminino sabe que existe muito tempo e dinheiro envolvido na criação de uma imagem social aceitável da mulher. Assim como sabemos que nenhum homem é tão seguro, poderoso, fiel, honrado e carismático quanto aparenta ser. É difícil passar a imagem do seguro, bem-relacionado e inteligente caçador que hoje é referência masculina.Todos eles tem suas inseguranças, defeitos e fraquezas que fazem deles homens comuns.

Mas não queremos homens comuns, não queremos mulheres comuns. O mundo é movido pela diferença, pela competição pelo posto de mais rico, mais famoso, mas bem-sucedido, mais bonito... Precisamos dos nossos artifícios para essa competição assim como um esportista precisa de seus equipamentos para praticar esporte. O mundo pede isso de nós e quem não der, simplesmente não se encaixa no jogo e é deixado de fora. Maquiagem e mentiras encontram suas fraquezas nos mesmos lugares, na sua natureza dissimulada, que teima em nos fazer pensar que as imperfeições podem ser corrigidas de fora para dentro. Não importa quantas mentiras o homem conte, nem quanta maquiagem uma mulher use, seu verdadeiro eu ainda está lá embaixo, escondido dos olhos dos maus observadores, invisíveis para aqueles que só vêem o exterior.

Eu achava que era uma ironia o fato das ferramentas mais usadas pelo nosso ego para regular nossas relações interpessoais fossem justamente as mais nocivas para se construir um relacionamento. Mas então em me lembrei que ironia significa "o contrário daquilo que se espera" foi aí eu me toquei que isso não é nem um pouco irônico. É triste.

sábado, 28 de abril de 2012

Metáfora XX


Você é uma pessoa feliz, não tem problemas muito graves de saúde ou dinheiro e está posicionado entre a classe média e aclasse média alta da sociedade onde vive. E assim como qualquer outra pessoa, você gosta daquilo que o dinheiro pode proporcionar. Isso faz com que você de vez em quando pense o quanto seria prazeroso ter um carro de luxo, ou uma mansão bem localizada e roupas finas de grife. Você tem seus métodos de ganhar dinheiro, mas eles são de longuíssimo prazo e envolvem um número de etapas tão grandes para se realizar que algumas vezes você quer simplesmente tomar um atalho.
Então você decide jogar na loteria. As chances são pequenas, você sabe que pode perder um pouco de dinheiro, mas o investimento monetário não é o problema para você. Contanto que você não aumente demais suas expectativas e mantenha bem claro em sua mente que aposta é aposta, está tudo bem, você está plenamente protegido dos impactos emocionais que o fracasso na sua tentativa de ficar rico poderia te causar.
Você vai até a lotérica já pensando no que você faria se tivesse tanto dinheiro, quais as primeiras coisas que você compraria, lugares que visitaria e festas que daria em comemoração ao seu novo estilo de vida. É bom sonhar com essas coisas, é bom imaginar uma vida melhor, afinal, nossos sonhos são uma das poucas coisas pelas quais não precisamos pagar para ter.
É possível que você até converse com um amigo sobre suas conjecturas acerca da sua provável fortuna, e ele compartilhe da sua empolgação, mas no fundo você sabe que sua aposta é apenas uma entre milhões, e você não tem mais chances de ganhar do que qualquer outra pessoa. Caso você ganhe, ótimo. Caso não, a vida segue em frente, ou será que você já conheceu alguém que entrou em depressão por não ganhar na loteria?