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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Metáforas XXIV


O primeiro olhar não nos revela muito. Claro que tal afirmação tem como referência o fato de que ser bonita não é "muito". A primeira impressão passa tudo aquilo que poderia em seu breve espaço de ser: existe harmonia, suavidade, simetria e até um toque de simplicidade na composição do todo. Até aí, nada mal.
Simplicidade inclusive é uma amiga muito íntima da beleza, lhe auxiliando ontologicamente sempre que possível, pois sofisticação algumas vezes transparece a falta de habilidade em fazer mais com menos, como se os elementos estéticos ali presentes fossem meras adições prolixas ao todo.

Mas voltemos a ela, simples e bela. Se terceiros tivessem nos dito que ela é especial, que sua composição é única e que seu processo de formação teve momentos peculiares que lhe conferiram um status maior, não chegaríamos a duvidar, mas nos aproximaríamos para checar o grau de veracidade da informação dada, muito mais por curiosidade do que por incredulidade. E não o fazemos de súbito, pois a nossa apreciação tem de ser como ela, suave, leve e harmoniosa. Os passos que damos para nos aproximar da musa sob os holofotes são lentos e comedidos, como se estivéssemos testando qual seria a distância necessária para os detalhes se revelarem.

O olhos se semicerram, a cabeça inclina para um lado e depois para o outro e então percebemos...



...percebemos em fim os detalhes que compõem o todo, e aí sim vem o arrebatador fascínio que a musa deveria nos causar. Assimilamos o que o todo realmente significa quando vemos partes tão engenhosamente combinadas para compô-lo. O que antes era uma beleza de nos despertar nada mais que um leve aceno com a cabeça seguido de algum comentário monossilábico manchado com a sombra de um sorriso agora nos ilumina não só a face com um sorriso, mas a alma com uma perplexidade. Percebemos o valor intrínseco daquilo que esta perante os nosso olhos, nos afastamos mais uma vez, para vê-la de longe e lá está a bendita simplicidade novamente, envolta em um brilho antes ausente. Agora que conseguimos captar toda a estética de sua criação, dos fatores que a fizeram vir a ser, percebemos o quão rara ela é.

Os sorrisos ainda nos acometem quando toda essa percepção volta a ecoar em nossas mentes, como quando nos lembramos da frase final de alguma perspicaz piada já contada. A incredulidade, anteriormente uma coadjuvante no amálgama de sentimentos, se recicla de repente. Mas reaparece como que potencializando a hipnose causada pela musa, não tentando negar-lhe a majestade como antes.

Claro que há quem sequer se aproxime, existem aqueles que a olham de soslaio e não se dão o trabalho de uma análise mais detalhada, talvez por falta de tempo ou de sensibilidade estética. Outros chegam a se aproximar, tentando descobrir algo além da simplicidade e beleza da primeira imagem que viram, mas seus encantos lhes permanecem um mistério, esses sim, pobres coitados, sofrem definitivamente da falta de sensibilidade estética.

À nós, afortunados tanto com o tempo e a curiosidade de um olhar mais aproximado quanto com a percepção para desfrutar das revelações por eles trazidas, restam os já mencionados incríveis sentimentos, reverberando numa sinfonia indescritível. E talvez, escondido num trecho posterior desta sinfonia, esteja também uma outra faceta da tal incredulidade, aquela que nos põe a pensar como, durante tanto tempo, tal beleza passou desapercebida?

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Metáfora XXIII


Os dois garotos não eram apenas amigos, eram quase irmãos. Tão próximos e parecidos que se trocassem de casa talvez os pais não percebessem. Brincavam das mesmas coisas, riam das mesmas piadas e viam os mesmos desenhos. Consequentemente, era de se esperar que compartilhassem dos mesmos sonhos. Por vezes eles se viam olhando o mesmo horizonte, imaginando as mesmas aventuras e cobiçando os mesmos prêmios.

Mas meninos são meninos, pequenos demais para alcançar as prateleiras altas da cozinha, onde estão os biscoitos mais gostosos, tolos demais para saber como alcançar um objetivo desafiador. E como os meninos que eram, algumas vezes ambos tentavam pular para alcançar aqueles prêmios tão distantes, mas nenhum deles sequer chegava perto.

Mas meninos crescem, e foi durante esse processo de crescimento que eles se viram mais uma vez olhando para o mesmo prêmio. O mais novo não era mais baixo ou fraco que o mais velho, até porque a diferença de idade entre eles era uma questão de poucos meses, portanto era de se esperar que estivessem em pé de igualdade perante um objetivo comum, ou pelo menos era isso que o mais novo pensava.

Então, como os meninos que estavam deixando de ser, eles pularam, esticando seus braços para alcançar o mesmo sonho. Mas desta vez foi diferente, desta vez a ponta dos dedos do mais velho chegou a tocar na lata de biscoitos. Eles se entreolharam depois da tentativa e sorriram um para o outro, como sempre faziam. Mas por dentro, o garoto mais novo não estava rindo, estava com medo. Ele estava começando a descobrir que não era assim tão parecido com seu amigo afinal de contas, apesar de terem a mesma altura, o mais velho pulara mais alto, isso significava que ele tinha forças que o mais novo não tinha, tinha uma vantagem natural sobre ele.

Triste, o menino mais novo reconheceu que compartilhar sonhos iria começar a perder a graça, pois a medida que ficassem mais velhos a diferença entre as capacidades de um e de outro ficaria maior, e sua inabilidade em alcançar sonhos entraria em evidência. Era melhor procurar outros sonhos, era melhor tentar alcançar outras coisas, pois se olhasse para os mesmo objetivos que o mais velho, sairia perdendo para ele.

Pular mais alto se tornou uma das maiores preocupações do menino mais novo desde então. Se bem que hoje ele não é mais um menino... ou é?

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Metáfora XXII




Há dez meses ele fazia o castelo de cartas, o ângulo de cada carta milimetricamente calculado para proporcionar uma estrutura piramidal perfeita. Colocava um por carta por carta. Haviam dias que não colocava nenhuma, dias em que colocava duas, e até aqueles dias em que ele colocava quatro. A cada semana o tamanho do castelo aumentada. Haviam algumas vezes em que ele chegava ao topo, mas então simplesmente adicionava mais duas cartas á base no canto da pirâmide e começava a aumentá-la de tamanho. As cartas verdes em cima da mesa estavam bagunçadas, ele havia juntado todos os baralhos que tinha para montar aquele castelo em cima da mesa.

A porta á sua esquerda estava fechada, mas as janelas e a outra porta estavam abertas, como sempre. Nada fazia a mesa tremer, nada fazia ele perder a concentração. Os movimentos eram precisos e calculados, se uma carta fosse colocada no castelo de modo imperfeito, ele a retirava cuidadosamente e tentava mais uma vez, era por isso que haviam semanas que ele só acrescentava um andar á sua estrutura. Frieza vinha sendo sua especialidade nos últimos dez meses. Com a excessão de dois breves momentos em que o vento batera a porta da esquerda, o castelo de cartas não correra perigo.

Contanto, é claro, que a porta permanecesse fechada.

Um dia, foi chamado para ir ao jardim. Botou mais duas cartas na sua estrutura e se levantou. Se arrumou e ficou animado, fazia tempo que não ia ao jardim, fazia tempo que não via as flores, o sol e muitas outras coisas que o animavam há um ano. Abriu a porta da esquerda e saiu. Quando chegou ao seu destino cheirou as flores e muitas pessoas que frequentavam o jardim periodicamente o cumprimentaram, todas comentando o longo tempo que ele não aparecia lá. O rapaz ficou feliz, correu, pulou, brincou e riu como não ria há muito tempo. Havia se esquecido de como era bom brincar no jardim, havia se esquecido de como era prazeroso sentir o perfume das flores, a maciez do gramado e as risadas dos outros que lá estavam.

Mas sua felicidade durou pouco. Pois ele não ia ao jardim por um motivo, e esse motivo não mudara em dez meses, e muito provavelmente não mudaria tão cedo. Ele se esquecera de porque desistira de sentir aquele perfume, de ver o gramado e de ver as pessoas. Se esqueceu de porque ele se trancara em casa construindo o castelo de cartas, usando cartas tão verdes quanto o gramado que queria evitar. E esse esquecimento lhe custou caro...

- Você está bem?
- Sim! Olhe só este maravilhoso gramado! Olhe só isso tudo!
- Então tem certeza de que está bem?
- E por que não haveria de estar?
- Não sei, talvez por causa da Phoênix...

Congelando, ele para um lado... nada. Olhou para o outro... nada. Mas quando olhou para o céu á sua frente, lá estava ela, brilhando de maneira incandescente já voando em sua direção. Ele pôde sentir o calor das penas á distância, pôde ouvir o bater das asas que assombrava seus sonhos e então começou a se lembrar de porque abandonara o jardim. Não era pelo jardim em si, ele aprendera com o próprio pássaro de fogo a amar o jardim como ele amava outras coisas, mas esse era justamente o problema: o pássaro amava o jardim também, e sempre estaria lá.
Assim que a ave flamejante passou por ele, as chamas o queimaram. Ele quase foi jogado para trás com a força do vento. Olhou para os lados desesperado e correu para casa.

Foi então que viu a porta da esquerda aberta e seu castelo de cartas que passara dez meses construindo no chão. Nem uma única carta ficara de pé. Ainda sentindo a dor das queimaduras, ele fechou a porta atrás de si. Era por isso que ele desistira do jardim, era por isso que ele sabia que ia ter que aprender á amar praias, montanhas, colinas e parques. Era por isso que aquela porta não podia ser aberta. Agora tudo fazia sentido, ele se sentou na cadeira que sempre se sentava para montar o castelo, ainda tremendo de nervosismo e com os braços ardendo, e passou um tempo olhando para o nada.

Era como voltar dez meses no tempo, ele botava as ataduras e, com as mãos tremendo, trancava a porta da esquerda, recolhia as cartas bagunçadas e as organizava numa única pilha, tudo exatamente como á dez meses atrás. Assim que terminou de organizar as cartas verdes do imenso baralho, dividiu-o em cinco pilhas, pegou duas cartas, e colocou-as em cima da mesa, uma encostada na outra, formando uma pequena pirâmide, e começou tudo do zero, exatamente como há dez meses atrás.

sábado, 14 de julho de 2012

Metáfora XXI



O limbo é como que um "prêmio de consolação" do catolicismo para aqueles que não são bons o suficiente para irem para o céu ou maus o suficiente para irem para o inferno. Uma espécie de escala que as almas tinham que fazer antes de adentrarem nos portões do céu. Em muitos escritos bíblicos o limbo é descrito como um lugar onde não há penas ou purificação a se realizar, é uma lugar em que se vive em plena felicidade natural sem, porém, ter a graça de Deus. Ou seja, sem a felicidade eterna e verdadeira que se aguarda no pós-morte.

Então resumindo, você vive feliz, mas não TÃO feliz quanto poderia. Você não sofre tanto quanto poderia estar sofrendo, mas em contrapartida, a felicidade suprema está reservada á aqueles que estão no andar de cima. Você está, para todos os efeitos, na média. É exatamente onde a maioria das pessoas se encontra, afinal esse é o conceito de média. Falta-lhe o essencial para desfrutar da felicidade verdadeira, o que você tem é apenas um tipo de paz estática, uma serenidade razoavelmente satisfatória.

E como o ser humano tende a olhar não para aquilo que tem, mas para aquilo que lhe falta, o limbo presumivelmente proporciona uma agonia muito grande a seus habitantes, por saberem que não estão lá nem cá. Estão felizes, sãos e em paz o suficiente para se dedicarem á pensamentos, filosofias e teorias acerca do quão boa a vida poderia ser, caso eles estivessem no paraíso. O tempo semeia infelicidades na mente ociosa, e logo o limbo é mais um castigo do que um lugar que se possa chamar de "felicidade eterna". Cheio de pessoas que, se tivessem feito um pouco mais, ou tivessem dado um pouco mais de sorte, estariam muito melhor do que estão agora. Um lugar cheio de pessoas que não estão exatamente completas, felizes e plenas. Mas estão ali tentando tapar aquele buraco com outras coisas, tentando ver se se distraem do fato de que elas não estão na terra prometida.

O único sofrimento no limbo é o psicológico, o da sua própria mente, pois afinal, em nenhum lugar das escrituras é dito que suas necessidades emocionais se anulam com a ida ao outro mundo. E deve ser realmente irritante não poder reclamar das dores do inferno e não poder usufruir das bençãos do paraíso. Deve ser chato ficar em um estado de torpor emocional, onde não há alegria verdadeira nem sofrimento verdadeiro, onde tudo o que você pode fazer é olhar para aquele vazio e tentar, inutilmente, esquecer que ele está ali.


sábado, 28 de abril de 2012

Metáfora XX


Você é uma pessoa feliz, não tem problemas muito graves de saúde ou dinheiro e está posicionado entre a classe média e aclasse média alta da sociedade onde vive. E assim como qualquer outra pessoa, você gosta daquilo que o dinheiro pode proporcionar. Isso faz com que você de vez em quando pense o quanto seria prazeroso ter um carro de luxo, ou uma mansão bem localizada e roupas finas de grife. Você tem seus métodos de ganhar dinheiro, mas eles são de longuíssimo prazo e envolvem um número de etapas tão grandes para se realizar que algumas vezes você quer simplesmente tomar um atalho.
Então você decide jogar na loteria. As chances são pequenas, você sabe que pode perder um pouco de dinheiro, mas o investimento monetário não é o problema para você. Contanto que você não aumente demais suas expectativas e mantenha bem claro em sua mente que aposta é aposta, está tudo bem, você está plenamente protegido dos impactos emocionais que o fracasso na sua tentativa de ficar rico poderia te causar.
Você vai até a lotérica já pensando no que você faria se tivesse tanto dinheiro, quais as primeiras coisas que você compraria, lugares que visitaria e festas que daria em comemoração ao seu novo estilo de vida. É bom sonhar com essas coisas, é bom imaginar uma vida melhor, afinal, nossos sonhos são uma das poucas coisas pelas quais não precisamos pagar para ter.
É possível que você até converse com um amigo sobre suas conjecturas acerca da sua provável fortuna, e ele compartilhe da sua empolgação, mas no fundo você sabe que sua aposta é apenas uma entre milhões, e você não tem mais chances de ganhar do que qualquer outra pessoa. Caso você ganhe, ótimo. Caso não, a vida segue em frente, ou será que você já conheceu alguém que entrou em depressão por não ganhar na loteria?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Metáfora?

Sempre gostei muito de vermelho. Desde que eu era pequeno e me perguntavam qual era minha cor favorita, a resposta vinha rápida e fácil em minha mente. Nunca soube exatamente como eu chegara a tal conclusão, mas sei que a minha preferencia de cor parecia algo que nunca mudaria.

Porém, apesar da minha paixão pela cor quente, ela nunca pareceu desempenhar um papel muito importante na minha vida. Não foi uma cor muito presente, levando em consideração que era a favorita. A cor mais marcante acabou se mostrando mais tarde, e qual não foi a minha surpresa quando eu descobri que era o verde.

Primeiro foi um vestido verde e uma gravata verde combinando num aniversário, depois foram olhos verdes refletindo a luz dos meus em momentos de felicidade, e depois foi uma casa verde que eu torceria o pescoço dia após dia para olhar na minha caminhada. O verde sempre estava lá, de uma maneira ou de outra colorindo o plano de fundo das experiências que mais importavam pra mim.

Fui descobrindo que tinha todos os motivos para gostar de verde e até acho que sempre tive essa preferência mas nunca percebi. Houveram tempos em que a vida estava em preto e branco e vermelho era primeira cor na qual eu pensava para colori-la, mas isso foi antes de todo aquele verde colorir minha vida de uma maneira inesperada.

E hoje continuo amando muito o vermelho, mas sei que verde é uma cor que já não pode faltar na minha tela.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Metáfora XIX

A gripe é, como todos sabem, um vírus para o qual não há cura, logo, você pode até tomar vacinas que evitem que você pegue certas variações do vírus, porém, mais cedo ou mais tarde você vai ficar gripado devido a uma mutação nova dele. Ele é um inimigo multifacetado, contra o qual não há defesa definitiva.

Ao longo da sua vida, você com certeza vai ficar gripado várias vezes, isso é inevitável. Suas precauções como não sair sem agasalho no tempo frio ou se alimentar bem apenas diminuem as chances de isso acontecer, mas não as anulam. Ficar gripado é certo como o sol da manhã.

Então para que servem os remédios para gripe?

Bem, quando dizemos remédio para gripe, estamos apenas usando uma equivocada força de expressão, pois não há remédio para gripe, há remédios para os SINTOMAS da gripe. Anti-térmico serve para baixar a temperatura corporal que se eleva por causa da febre, analgésico é para aliviar as dores corporais, chás com própolis e mel servem para a garganta irritada, mas veja bem, nada disso é a gripe em si, o vírus continua lá, são seus anticorpos que estão fazendo o trabalho. Todos esses remédios só servem para aliviar o seu sofrimento enquanto isso o vírus é naturalmente combatido ao passar do tempo.

Então vejamos: não há nada que se possa fazer para curar a gripe, seus anticorpos irão fazer isso, então sua cura é uma mera questão de tempo. Tudo que você pode fazer é procurar remédios para aliviar o sofrimento trazido pela doença nesse período de de tempo.

Mas e os orgulhosos que não querem tomar remédios? E quanto aqueles que se acham muito virtuosos ao negarem os medicamentos que aliviarão seu sofrimento? Eles são realmente mais fortes que os outros por contarem apenas com sua própria força interior, dando boas vindas ao sofrimento que vai supostamente lhes deixar mais fortes? Ou serão eles tolos que correm o risco de desenvolver doenças mais graves ou simplesmente expõem a si mesmo á um sofrimento desnecessário?

O quão louvável é encarar sofrimento de frente? O quão desprezível é ser incapaz de fazê-lo sem a ajuda dos remédios? Qual o tamanho da dor aceitável, aquela que todos deveriam suportar? E qual é aquela que nos dá sinal verde para demonstrar fraqueza? Qual o peso do fardo que todos nós reconhecemos que sempre será grande demais...

...para ser carregado em silêncio?

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Metáfora XVIII



Se um estagiário que ganha 500 reais e acabou de abrir a conta pedir um empréstimo de, digamos: 100.000 reais, é provável que o gerente ria da cara dele e nem o leve á sério. Porém, se um concursado que ganha 13.000 por mês e tem conta á dez anos fizer a mesma coisa, aí a história é outra. Qual é a diferença entre os dois? Porque um tem crédito e o outro não?

Bem, o banco (assim como todo mundo nesse planeta) não quer perder dinheiro, logo, porque ele emprestaria 100.000 para um jovem que tem exatamente o perfil de uma pessoa que não vai poder pagar? O risco que o banco corre é muito grande, logo, é melhor reunir as informações sobre o cliente e, a partir delas, estipular um crédito. Se o estagiário pedisse um valor em torno de 200 reais, isso seria perfeitamente aceitável.

O crédito do cliente e estipulado pelo tempo que ele tem a conta, o tanto que ele ganha e, principalmente, sua estabilidade financeira. Uma certa média entre estas três variáveis é feita para se determinar quanto o banco está disposto á emprestar para aquele cliente.

Agora imagine um banco que funciona quase deste jeito, com duas diferenças:

1. A variável de maior peso na avaliação do seu crédito não é o tanto que você ganha ou seu tempo de conta, mas sim sua estabilidade financeira, ou seja, o que mais vai pesar é o tamanho do comprometimento que você mostra em pagar suas dívidas, não a capacidade em fazê-lo.

2. A taxa de juros é zero. O banco não vai cobrar um centavo a mais de você, ele vai ter dar uma quantia e esperar exatamente o mesmo de volta, nem mais nem menos. O banco não tem a menor intenção de lucrar em cima de você, ele te empresta 1.000 e não se importa se você vai pagar em 100 vezes de 10, contanto que você não atrase nenhuma parcela.

Agora imagine que você a pouco tempo abriu uma conta nesse banco e depositou uma quantia significativa de dinheiro. Apenas um dia depois, o banco lhe diz que seu crédito é X, onde X é um valor pelo menos 100 vezes maior que o seu depósito. Você chega a se perguntar como é possível ter crédito aprovado com tanta facilidade e até se pergunta se aquilo não é um golpe. Mas o que o novo correntista se esquece é que esse banco não avalia só correntistas próprios, ele observa os potenciais clientes muito antes destes paterem ás suas portas. Afinal, a variável de maior peso para a avaliação de crédito é: "Esse cliente é confiável?" e não "esse cliente é rico?".

O banco já havia observado o modo como você trata suas dívidas e o seu grau de comprometimento com suas obrigações, ele já havia observado coisas minúsculas que diziam muito sobre você, como por exemplo seus planos de longo prazo, no que você gasta seu dinheiro e em quanto tempo ele acaba, emfim, o banco já traçou seu perfil antes de abrir sua conta. Ou seja, se ele disse que você tem um crédito muito alto á juro zero e com prazos flexíveis, confie.

Você deve ter sido bem avaliado.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Metáfora XVII


No mundo de hoje, apesar de reclamarmos de políticos corruptos e donos de empresa gananciosos, nós temos também uma certa dose de egoísmo de vez em quando. E nas relações sociais hoje, há vezes em que o conceito do que é certo e o que é errado não coincide com aquilo que é vantajoso e o que é desvantajoso. Existem pequenas situações em que o custo benefício aponta para o imoral e nós, presumindo que nossas ações não serão muito destrutivas, o fazemos mesmo assim.

Mas há pouquíssimas pessoas que, por fatores de criação ou experiência pessoal, seguem princípios de maneira um pouco mais rígida que o resto do mundo. Pessoas que não comprariam DVD's piratas, nunca baixariam uma música ilegalmente, nunca usariam falhas nas leis e normas a seu favor e nunca prejudicariam os outros em benefício próprio. Essas pessoas são raras, justamente porque hoje, na sociedade em que vivemos, decidir não comprar produtos piratas, por exemplo, significa gastar muito mais dinheiro com originais. Essa pessoa não está sendo premiada ou reconhecida por ser ética e comprar originais, ninguém está dando mérito ou validação social á ela por causa disso, portanto, olhando de um ponto de vista prático, é uma postura que só trás desvantagem, certo?

O bom cidadão seria então um trouxa que tem mais trabalho que os outros em seguir leis e gasta mais dinheiro porque não se aproveita de situações vantajosas. Ele é visto como um perdedor que segue regras inúteis e cultiva valores mortos, que não trarão reconhecimento para ele.

Mas isso é o que a maioria das pessoas costuma pensar, não todas. Pois bom cidadão reconhece bom cidadão. As pessoas que cultivam certas virtudes sabem as encontrar nos outros. Além do mais, o cidadão comum nunca saberá a tranquilidade, paz de espírito e consciência limpa da qual o bom cidadão desfruta. O orgulho que ele tem de seguir seus princípios, a alegria que ele tem de olhar para sua coleção de DVD's e saber que são todos originais, de olhar para seu dinheiro e saber foi tudo honestamente ganho, de olhar para sua posição social e saber que nenhuma regra foi violada para que ele chegasse até lá.

O bom cidadão sabe que custa caro ser honesto, sabe que dá trabalho não tirar vantagem de ninguém, ele sabe que escolheu o caminho difícil, e é por isso mesmo que ele tem tanto orgulho de ser como é, porque sua felicidade jaz justamente no esforço adicional que ele despeende para ser o incorruptível entre os corruptos, o fiel entre os traidores, o honesto entre os dissimulados...

o farol em meio a escuridão.

sábado, 19 de novembro de 2011

Metáfora XVI


Todos os produtos tem em si um valor embutido. Um valor que possui muitas variáveis, como por exemplo, o custo de fabriação, manutenção, etc. Esses valores costumam ser razoavelmente fácies de se deduzir, se você gasta um valor X para fabricar o produto, deverá vendê-lo por X+Y, onde Y é o seu lucro. Por mais que isso seja uma simplificação tosca, é mais ou menos assim que funciona.

Mas o valor de um produto não é só determinado pelos custos fixos dele. Ele também é fortemente influenciado pela idéia que as pessoas tem dele. Quando você compra um terno da Hugo Boss de 5.000 reais, pode ter certeza de que 4.500 estão sendo gastos na etiqueta onde está escrita a marca, os outros 500 são o valor do terno. O valor da MARCA é o que importa no final das contas.

A idéia que as pessoas tem sobre o valor de um produto influencia seu valor real, o custo de produção chega a ser uma influência pequena quando levamos isso em conta. Se as pessoas estão dispostas a pagar caro, o produto será caro. Ponto final. Logo, sua disponibilidade no mercado vai entrar como uma sub-variável no valor, pois se todos querem o produto, mas ele é caro, apenas a elite pode tê-lo, e nada é melhor para um produto do que ser elitizado, pois ele vira sinônimo de poder e status.

Enquanto as pessoas não considerarem o produto valioso, ele não o será. Mas como fazer para que as pessoas considerem o produto valioso? Bem, elas tem que saber de todos os pontos positivos dele, precisam saber por que ele é especial e por que deveriam comprá-lo. As pessoas precisam conhecer a marca e saber o que ela implica: conforto? confiabilidade? qualidade? Quais são os valores atribuídos ao produto? O que ele representa? Elas precisam saber os diferenciais do produto para se sentirem impelidas a comprá-lo. Só assim ele será valorizado.

É aí que entra a propaganda. O produto não pode apenas SER, ele tem que PARECER SER O QUE É. Ele tem que transbordar todos os seus diferenciais, tem que mostrar todas as qualidades que só ele tem, não adianta nada o produto ser feito de um material bom, se ele não é brilhante e com um design atraente. Qualidade omissa é qualidade inútil. Ninguém vai valorizar o que não vê. Logo, propaganda é a alma do negócio. Tudo aquilo que o produto é, representa e pode proporcionar tem de chegar aos olhos e ouvidos do consumidor através de propaganda bem feita.

Mas o mercado é competitivo. E existe também a propaganda enganosa. Logo, muito produtos estão sendo desvalorizados apenas porque não tem uma boa propaganda, enquanto produtos de qulidade duvidosa são objeto de desejo de mares de consumidores, apenas porque são bem trabalhados exteriormente. Infelizmente essa é uma característica do mercado. Um produto bom sem boa propaganda tem chances muito pequenas de sucesso, o produto bom que tem boa propaganda se esgota rápido e não passa muito tempo nas prateleiras. O produto mal com a boa propaganda é comprado diversas vezes, e mesmo com reclamações e devoluções, ele continua a render lucros. Sobra no mercado apenas os restos, aquilo que ninguém quis, e com a lei de oferta e demanda atuando, os preços dos restantes caem.

Qual é a qualidade do seu produto? E o mais importante: como está o valor do seu produto no mercado?

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Metáforas XV


Já estudou economia?

O mundo hoje funciona da seguinte maneira: a relação entre a oferta e a demanda por um produto vão determinar seu preço. Quanto mais abundante é um bem, mas barato ele é. Quanto maior a demanda por ele, mais caro ele é. Resumindo muito porcamente, a economia funciona com base nisso (e em uma outra meia dúzia de regras irrelevantes para o post).

Pois bem, vamos imaginar que você tem um produto e quer vendê-lo, você estabelece um preço e abre seu negócio. As pessoas gostam, e você começa a ganhar dinheiro, até aí tudo bem. Mas aí você descobre uma fonte secreta da matéria prima do seu produto, uma reserva natural intocada pelo homem que é só sua, com material o suficiente para fabricar seu produto até o fim da vida. Você começa a se aproveitar dela e produz em grande escala, revende para que outras pessoas espalhem seu produto e logo todos estão comprando de você direta ou indiretamente.

Mas então você nota um problema, o número de pessoas que tem seu produto é alto demais. Ele agora é comum demais, logo ele não tem nenhum diferencial, nenhum atrativo para o mercado, pois ele existe em abundânica. Apesar de lucrar bem com ele, você percebe que ele não é valorizado como deveria ser, que as pessoas não olham o seu produto com os mesmos olhos que você, não sabem o tempo que você passou para inventá-lo, do empenho e prazer que você tem em inspecionar cada etapa da produção para garantir a qualidade. Seu produto é desvalorizado por ser abundante.

No mundo da economia escasses é a chave. O mundo hoje trabalha em cima do conceito de escasses, não pode haver o suficiente para todo mundo, pois senão não há lucro para as empresas. A roda da economia gira porque você não tem o que quer, pois se tivesse, por que se daria o trabalho de comprar? Logo você pode até gostar muito do seu produto, mas se quer ver ele valorizado, vai ter que aumentar o preço, elitizá-lo e restringir o publico alvo, pois se não você terá que conviver eternamente com o amargo gosto da desilusão. Você verá que produtos piores são infinatemente mais valorizados só porque tem estratégias de marketing melhores que as suas.

O que fazer? Ir contra todas as leis da economia e usar sua fonte mágica mesmo assim, convivendo com o fato de que abundância sempre estará acompanhada de desvalorização? Ou secar a fonte e fingir que ela nunca existiu, contratar um bom marketeiro e convencer as pessoas através da propaganda de que o seu é o melhor e pronto? A sensação altruística de se ver produzinhdo tanto quanto é você é capaz de produzir e ver seus consumidores SEMPRE providos vale o preço de acomodá-los com a idéia de que seu produto nunca vai faltar?

Ou se há uma terceira opção, se há um equilíbrio, qual seria? Como regular a fonte mágica, equilibrar oferta e demanda de maneira á ter um bom lucro e manter um bom preço, em ter um produto acessível e ter um produto valorizado? Como satisfazer á você e ao seu cliente ao mesmo tempo?

Caso descubra, me conte, pra gente ficar rico!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Metáforas XIV


Imagine que você descobre relativamente cedo que gosta de desempenhar uma certa atividade, e se especializa nela. Aos poucos você vai fazendo cursos específicos, assiste seminários e dedica uma grande parte de seu tempo no aperfeiçoamento das habilidades que são necessárias para o desempenho da atividade. Você começa a se envolver tanto naquilo que até parte da sua auto-imagem fica atrelada á ela, parte de quem você é se tornou aquilo que você faz de melhor, fazendo com que você sempre busque perfeição no seu desempenho, e seja mais duro consigo mesmo perante falhas. Logo, sua dedicação começa a render frutos e algumas pessoas começam a notar que você é bom naquilo que faz, percebem a paixão nos seus olhos quando você fala daquilo, percebem todo o conhecimento que você tem que te faz um bom profissional, percebem que tudo que você diz e faz realmente condiz com a eficiência que elas desejariam ver numa pessoa que desempenha aquele papel.

Então, mais cedo ou mais tarde, uma dessas pessoas te chama para trabalhar numa pequena empresa, você, empolgado, aceita. Começa seu trabalho com o maior sorriso dom mundo no rosto e não falta um dia de trabalho. Faz tudo o que tem que ser feito e um pouco mais, cobrindo falhas de outras pessoas que estão ali trabalhando com você e sempre sendo humilde em relação ao seu nível profissional. E continua assim durante um certo tempo.

Até que chega um dia que você começa a notar que está recebendo o mesmo salário das pessoas menos dedicadas que você, você percebe que não está tendo dias de folga adicionais referentes as horas extras que você trabalha, você percebe que produz muito mais do que um funcionário normal produziria e não esta sendo reconhecido por isso. Você se cala, lembra-se de que deve ser humilde, mas ainda continua com uma pulga atrás da orelha, que dá um comichão toda vez que sai seu salário, toda vez que você entra pela porta e espera em vão seu chefe lhe chamar para falar sobre um aumento ou uma promoção que nunca vem.

Você se esquece que aumento e promoção não são obrigações do chefe, e sim recompensas que ele dá a quem quiser. Nenhuma lei o obriga a reconhecer o seu esforço e é por isso que o máximo que você pode fazer é pedir, pois em contrapartida nenhuma lei obriga você a ser um bom profissinal. Você vai a sala do chefe e conversa, mas não adianta, você não será promovido, muito menos ganhará mais, e ele ainda te diz que se você faz hora extra, é porque quer, pois ele não pediu.

Você fica indignado! Pensou que o melhor a se fazer era justamente fazer de tudo sem o chefe ter que se dar o trabalho de pedir, pensou que fazer sempre á mais daquilo que era obrigatório fosse a chave do sucesso e vê todos os seus diplomas, cursos e especializações sendo tratados como irrelevâncias, como pequenos exageros desnecessários que inclusive deixam seu chefe incomodado, pois o colocam numa posição de quem teria que retribuir, é como se ele dissesse: "Pare de fazer tanto, pois não estou disposto a te promover muito menos aumentar seu salário, então não disperdice seu esforço, pois me sinto meio embaraçado com você me cobrando mais."

Simplesmente não faz sentido, tudo o que você sabia sobre o mercado de trabalho parece desabar, todos os manuais, livros, vídeos e inclusive sua experiência em trabalhos passados lhe ensinaram que dedicação era a chave do sucesso. E é aí que depois de muito conversar com muitos outros profissionais, você descobre uma coisa. O problema não é você, os valores do mercado de trabalho não se inverteram do dia pra noite, o problema é que a empresa na qual você está trabalhando simplesmente não tem dinheiro para te pagar mais, ela simplesmente não tem estrutura para te dar uma diretoria com escritório próprio. É uma empresa pequena demais.

Por um lado você fica desapontado, pois gostava da empresa, a localização era boa, o horário era razoável e o convívio com as pessas lá era bem tranquilo, até o chefe não dava muito trabalho. Mas você simplesmente não consegue ver toda sua especialização e dedicação simplesmente sendo chutados, é demais para você, afinal, trabalhar nisso virou parte da sua vida, é parte de quem você é como pessoa e não há como ignorar essa apatia. Depois de muito pensar, você vê que não vale a pena, por mais que seja prazeroso trabalhar naquele lugar, você tem contas a pagar e sabe que seus dilomas e especializações valem mais que aquilo. Um pouco á contragosto você pede demissão.

Infelizmente toda a sua dedicação teve um preço, a imagem do bom profissional está ligada á você e isso faz com que você tenha que filtrar as empresas nas quais você entra, pois sabe que não fez cursos pra nada, sabe a quantidade de pessoas por aí que não fazem metade do que você faz trabalhando alegremente e ganhando dinheiro e reconhecimento. Sabe inclusive dos profissionais desonestos que dão golpe em empresas e escondem seu histórico, você sabe que é um em mil, e já não consegue mais trabalhar se seu chefe não ver isso também. Você percebe que tem que ir para uma empresa que entenda de golpes, que entenda de maus profissionais, que saiba o valor que uma pessoa treinada e competente como você tem, não ha futuro para você em lugares que não se importam com a qualidade dos serviços prestados.

Sua empresa é aquela que está disposta a te pagar aquilo que você sabe que merece receber, é aquela que sabe que bons profissionais custam dinheiro e fazem parte do investimento da empresa, sua empresa tem que ter a experiência que você teve em campo para enxergar tudo isso de antemão e corresponder a dedicação que você tem aquilo que faz. Por um momento você até pensa se nao seria mais simples não ter se especializado, que seria tudo mais fácil se você não fosse nada mais do que um trabalhador comum sem nenhum diferencial.

Mas então você se lembra que isso não importa, porque agora você é o que é, e não há como esquecer o que você aprendeu, não há como diminuir sua competência deliberadamente, não há como alguém simplesmente pedir para você se dedicar menos, para trabalhar menos horas, ou fazer menos serviço. Não há mais como esquecer os cursos de capacitação que você fez e se tornar um profissional "mais barato".

O jeito é achar uma empresa que precise de um profissional como você.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Metáfora XIII


Os dois estão acampados numa clareira, a floresta é densa e a noite é mais escura do que os olhos estão acostumados. Armaram uma tenda e conseguiram fazer uma pequena fogueira, quente o suficiente para mantê-los durante a noite. Ele e ela se protegem do frio não só com a fogueira mas com o calor um do outro, os ventos da floresta agitam as folhas e assobiam sinistramente entre as árvores, dando a impressão de que a mata os observa de perto.

Como se tudo isso já não fosse o suficiente, ele vê os arbustos se mexendo, como se algo passasse por eles. Fica de pé com o coração acelerado e ela olha para ele, depois para o ponto onde ele olhou. "O que foi?" Pergunta ela. Mas ele nada diz, deve ser apenas a sua imaginação. Senta-se muito mais vagarosamente do que levantou e volta a abraçá-la. Mas a noite é longa não demora muito até que ela veja um vulto, mais negro que a noite e mais rápido que o piscar de seus olhos, passando por detras da barraca. Ela da um leve pulo com o susto e ele nota isso. "O que foi?" Pergunta ele, mas ela apenas responde que não era nada, podia ser apenas um coelho ou uma raposa, nada com que se preocupar. Pelo menos não por enquanto.

Mas a noite fica mais fria, de uma maneira que não é normal numa floresta, os assobios vão ficando mais sinistros, como se o vento gemesse as dores dos mortos naquelas matas. Ela adormece e ele fica de vigília, desta vez ele sente um frio gelado na espinha e um bafo quente na nuca, como se alguma criatura estivesse com a boca á centímetros de seu pescoço, ha algo ali. Quase gritando, ele salta de uma vez e se vira para tras, mas não há nada. Ela, que acordou derepente, pergunta: "O que foi, o que você viu?" Ele responde que não sabe, não viu nada, mas SENTIU algo, tem certeza que sentiu algo. "Você não sentiu nada?" pergunta ele, imaginando como seria possível não ter sentido aquela presença fantasmagórica agora pouco. Depois de um pouco de silêncio, ela responde: "Não. Não senti nada."

Ainda assustado e mais alerta ainda, ele volta a se sentar, joga mais um pedaço de lenha na fogueira, levantando brasas ao ar e puxa ela para se encostar em seu ombro. Mas ele já está tenso, tem certeza de que há algo ali. Algo maligno os espreita, ele só não sabe o que. O que ele não entende é como ela não sentiu nada, será que aquilo tudo era fruto de sua imaginação? Mas nem todo o seu medo o manteve acordado por muito tempo. Ele logo cai no sono e não percebe o tempo que se passa até ser acordado de súbito por um movimento brusco do lado dele. Era ela, ela havia se assustado com algo. Esfregando os olhos com ímpeto, ele olha em volta e não vê nada. "O que foi, o que você viu?" Pergunta ele. "Nada, deve ter sido minha..." Mas antes que ela concluísse a frase, o vulto preto sinistro passa novamente, desta vez, entre eles e a fogueira, á míseros dois metros de distância deles. Os dois gritam, pulam para trás, ela segura em seu braço com mais força que o necessário e ele leva a mão á adaga que está presa a cintura, olhando fixamente para o ponto para onde o vulto foi.

Mas algo dentro dele sabe que sua adaga de nada vai adiantar, algo dentro dele sabe que aquilo é algum tipo de entidade que não pode ser ferida com metal. Desta vez ele olha para ela e pergunta uma última vez: "Bem o que acha que fazemos? Há algo aqui." Mas ela nada diz, o oberva e depois de um incômodo silêncio, diz: "Não sei."

"Pois eu sei, vamos nos unir e caçar essa besta, minha adaga pode não ser de serventia, mas com minha magia e sua magia podemos queimar este demônio do gelo. Nossas fênix unidas podem...."

Não, não. Ele não responde isso. Ele PENSA isso. Por algum motivo essas palavras ficaram presas em sua garganta. Ele deixou aquele "Não sei" ecoar com força dentro de sua mente, reforçando uma pesada e violenta sensação de insegurança. E foi neste momento que ele foi vencido, neste momento o medo já era maior que ele. A noite foi passando e ele foi perdendo o sono, as poucas vezes que conseguia dormir, era castigado com horríveis pesadelos. E a cada vez que sentiam o fantasma se aproximar e sussurrar em seus ouvidos, os dois nunca estavam acordados juntos, ou olhando na mesma direção. O pequeno demônio só aparecia para um de cada vez.

Até que ele toma a decisão mais tola da noite. "Se você não sabe, vou procurar sozinho" Diz ele tentando demonstrar iniciativa, boa vontade, bravura e disposição para protegê-la. Ele pega um casaco e sai na mata sozinho, aos poucos vê o brilho da fogueira atrás de si diminuir, ingora as tentativas dela de dizer que aquilo era desnecessário, e pensa "Hora, se é desnecessário, então o que faremos?" Mas seu olhos não penetram na escuridão, o frio sem a fogueira ali perto é implacável, ele segura sua adaga com toda a força enquanto sente a presença sinistra se aproximar. Olhos vermelhos surgem na sua frente e ele sente a respiração parar, a mão tremer e os joelhos falharem. Flutuando no ar sem uma face na qual se prender, os olhos sinistros o encaram, desafiadores, ainda tremendo ele ergue a sua adaga, mas nesse momento, um grito espectral enche a mata. Um grito de doer os ouvidos de tão agudo e profundo. Junto com ele, um vento forte o suficiente para derrubá-lo sopra de repente. Ele volta correndo, convencido de que não pode fazer aquilo sozinho. Com o orgulho ferido, o espírito quebrado e a vontade esmagada, ele só consegue pensar em uma coisa, sair daquela floresta o quanto antes. "Não vou nem esperar o amanhecer" pensa ele.

Sem nem saber pelo que ela passou enquanto foi deixada sozinha ao lado da fogueira, eletoma sua decisão.

Por que ela não falou nada? Por que ele não falou nada? Ninguém sabe. Mas o fantasma conseguiu o que queria, através de insegurança e medo, conseguiu separá-los na jornada. Pois se você parar para pensar, fantasmas não podem fazer nada além de assustar. Sua arma é o medo, ele nunca foi uma ameaça real para o casal, mas nossa perdição é sempre o medo daquilo que "pode vir a ser" nunca daquilo que é. A grande maioria dos nossos medos nunca chega a se concretizar se você for parar para pensar. A arma que o fantasma usa não é dele, foi o casal que o armou, foi o casal que deu poder para que ele pudesse envenenar suas mentes mais ainda. Tudo o que aconteceu naquela noite na mata, foi ilusório, veio da mente deles, do medo deles, não havia nada lá, absolutamente nada. Tudo começou com uma única semente de medo.

Se ao menos eles tivessem se unido, se ao menos em um daqueles momentos eles estivessem olhando na mesma direção. Se ao menos eles tivessem FALADO...

...ah...tudo, tudo teria sido muito diferente.

domingo, 4 de setembro de 2011

Metáforas XI - Parte II

Sua intuição estava certa, sua experiência não estava equivocada, seu árudo e longo treinamento realmente não lhe desapontara.

Havia SIM algo ali, algo perigoso, algo que iria além de suas capacidaddes, algo além de tudo aquilo para o qual ele se preparou, algo mais poderoso e mais forte do que ele jamais poderia imaginar. Naquele calabouço escuro, fétido e de corredores estreitos, ele não ouvia nada mais que a própria respiração, mas sentia o perigo passar muito perto e ameaçá-lo de morte a cada passo.

Não que ele não estivesse preparado, ele estava tão pronto quanto qualquer ser humano poderia estar. Não que ele não tivesse treinado, ele havia praticado tanto quanto qualquer um na idade dele poderia praticar. Não que ele não fosse digno do desafio, mas seu inimigo estava simplesmente muito além de suas capacidades.

Ele sabia que só tinha um escudo, sabia que só tinnha uma espada, sabia que um ataque surpresa no ângulo correto seria seu fim. Sabia que sua armadura não cobria cada centímetro de seu corpo. Mas saber muitas vezes não é o suficiente, e foi assim que aconteceu.

Algo maligno veio. Algo mais frio, impiedoso e implacável do que ele pôde imaginar. Não veio da retaguarda, não veio dos flancos, muito menos de cima, veio bem da sua frente. Um tipo de lâmina escura veio em sua direção e ele até teve reflexo o suficiente para levantar o escudo, mas seja lá o que era aquilo, atravessou não só seu escudo, mas seu braço, sua armadura e seu peito, direto para seu coração.

Um único golpe. Um único movimento lhe dera a revelação que ele precisava. Ele não estava preparado, sua intuição havia acertado. Algo além de sua imaginação o aguardava. Mas sua intuição não lhe salvara. Na verdade, nada poderia lhe salvar daquilo que acabara de lhe atacar. Ele sangrou, sentiu uma dor inimaginável ao ter sua carne rasgada e sua armadura quebrada pela lâmina negra que se projetava a partir de um ponto vazio nas trevas.

Havia algo ali, e agora ele sabia o que era!

Nunca devia ter descido ao calabouço, nunca deveria ter sequer tentado resolver aquele problema. Mas se bem que se ele tivasse recusado, não seria ele, se ele fugisse da missão, não seria ele. Ele estava ali, com uma estaca negra atravessa da no peito sentindo uma dor que nunca sentira na vida. A palavra indescritível parece fraca e vazia para a dor que ele teve de suportar ao cair de joelhos perante um desafio para o qual nunca estaria preparado.

Tentou brandir a espada, tentou levantar o escudo, tentou correr, tentou até gritar, mas nem para isso tinha forças. Seu coração havia sido trespassado, ele estava morto, era seu fim. Iria morrer tentado proteger aquilo que amava, iria encontrar seu fim tentando preservar as pessoas que o condenaram.

Não via nada além de escuridão, foi deixando de sentir não só dor, mas tabém qualquer outra coisa que dependesse do tato para funcionar. A visão, já obscurecida pelas trevas do calabouço fétido, ficou ainda mais negra e logo se foi. Ele caiu, foi derrotado. Apunhalado de surpresa por um inimigo que na verdade ele já sabia que estava lá.

Sua morte teria sido cruel e fria. Seu fim teria chegado de maneira rápida e ninguém nunca acharia seu corpo. Ele apodreceria nos calabouços da praia que jurou proteger, seu esqueleto viraria pó e os habitantes daquele litoral continuariam suas vidas normalmente.

Mas não foi bem assim. Ele acordou numa cama, zonzo, com o peito donendo e com o coração acelerado. Ele fora salvo, Estava num casebre simples de madeira que ele logo reconheceu como sendo de um dos moradores da vila, mas era inteligente o suficiente para saber que nenhum morador entraria no calabouço para lhe buscar, entõa chegou a conclusão óbvia.

O arqueiro e o paladino, seus amigos, haviam lhe salvo. Tanto tempo havia passado desde que ele não contava com a ajuda de ninguém, que se esquecera de que seu aliados estavam por perto, prontos para çhe ajudar. Não fora sua fênix, na qual ele tinha tanta fé, muito menos a fênix alheia, a qual ele sequer via há muito tempo. Foram eles, seus companheiros de viagem, que lhe salvaram a vida.

Eles não ganharam nada indo lá, o calabouço não fazia parte de seu objetivo, eles não iriam receber nenhum tinpo de reconpensa com essa missão. Mas eles foram, eles arriscaram suas vidas para tirar um companheiro do ninho de desespero em que se encontrava. Eles gastaram recursos e tempo para salvar a vida alheia. Coisa que a fênix não fizera. Aliás, onde estaria ela gora? Depois de tantar preces, cortejos, orações e sacrfícios, onde estava a fênix? Ele estava num calabouço frio, abandonado e perigoso, ela seria de grande ajuda numa hora daquelas, mas não ela sequer estava lá e ele nem percebera isso. Rezava, adorava e reverenciava o pássaro como um tolo cego que quer acreditar no que não é real, enquanto sua vida corria real perigo no calabouço.

Foram eles, seus fiéis amigos que o salvaram de uma terrível tragédia lá embaixo. Era a eles que o bardo devia a vida, não á fênix. Foi então que ele começou a ligar as coisas. Quem era o inimigo, quem afinal conheceria suas fraquezas tão bem ao ponto de lhe derrubar ocm um golpe só? Quem seria habilidoso o suficiente para se aproximar sem ser visto, desferir um golpe sem ser impedido e fugir sem ser pego? Teria de ser alguém que conhecesse suas fraquesas, teria de ser alguém que soubesse suas táticas de batalha, teria de ser alguém próximo...

A verdade, começou á cercá-lo como um fantasma indesejado, daqueles que está bem ali, mas você não tem corajem o suficiente para encará-lo de frente. Todas as suas observações convergiam para a mesma conclusão, todas as suas experiências apontavam para um só lugar. Seu inimigo na verdade era invencível, invulnerável. Ele não tinha chance alguma contra ele, ele tinha apenas uma opção e sua opção era justamente aquilo que ia contra todos os seus juramentos, contra tudo aquilo que ele acreditava, contra tudo aquilo que ele prometera proteger.

Assim, ele mergulhou no mais violento e mais arrasador DILEMA de sua vida:

Vida ou morte?

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Metáforas XI


Nenhum ruído, o calabouço está quente e úmido, muito mal iluminado pelas tochas nas paredes. O guerreiro anda por lá sem saber o que vai encontrar. A tensão domina cada músculo do seu corpo e ele segura sua espada com uma força que já teria quebrado a mão de muitos dos seus companheiros.

Seu olhar percorre cada canto de cada pedra que compõe as paredes sujas do lugar, a vida fez do guerreiro um homem alerta, atento e perspicaz, perceber detalhes muitas vezes pode ser uma questão de vida ou morte. Mas não há nada lá, pelo menos nada que seus olhos vejam.

A cada curva que faz, a cada porta de madeira que ele abre com um rangido, sua expectativa de encontrar um inimigo aumenta, tudo isso enquanto ele memoriza a rota que está fazendo para não se perder no caminho, ele foi treinado para resolver problemas no menor espaço de tempo possível e com a maior eficiência possível, foi ensinado a combater inimigos, erradicar ameaças e sempre aprimorar tanto suas táticas de batalha quanto sua capacidade de trabalhar bem com seus aliados. Tudo para maximizar os resultados no campo de batalha.

O treino duro do guerreiro também o transformou numa pessoa humilde, ele tanto sabe que não é perfeito que está sempre despendendo esforços enormes na sua evolução pessoal e na análise de suas fraquezas. Ele sabe que ali dentro pode ter algo maior que ele, ele sabe que naquele lugar escuro e fétido, alguma besta que ele nunca viu na vida pode estar á espera. E ele teme isso, porém se prepara para tal possibilidade da melhor maneira possível.

De vez em quando, um barulho de metal caindo o faz ficar ainda mais tenso, se é que isso é possível, mas é apenas um rato. Ele volta sua atenção para o espaço á sua volta e continua a lenta e cautelosa caminhada rumo ás profundezas. O coração vai batendo mais forte e por alguns intantes sua memória vacila, ele não se lembra do caminho exato que fez para chegar até ali. Não teve a mesma sorte que Teseu, o herói mitológico que recebeu um novêlo de lâ de sua amada para não se perder no labirinto do minotauro. Não, não. Este guerreiro não recebera nada.

Sua mente iria guiá-lo, nada mais. E é então que ele começa a se perguntar se o seu treino o preparou para aquilo. Durante toda sua vida ele seguira os mesmos princípios e sempre acreditara nas mesmas virtudes, e estas sempre o conduziram á vitória. Mas agora, ele duvidava de si mesmo, engolia seco enquanto olhava para as trevas e ia tendo cada vez mais certeza de que ali havia algo para o qual ele não havia sido preparado, havia algo que ele não fora treinado para ver, ou talvez seu treino o tivesse deixado cego para certas coisas que ele nunca considerou existirem.

O passo vai ficando mais lento, o barulho de agua gotejando e a respiração dele são as únicas coisas audíveis no momento. Um frio lhe corre a espinha e ele percebe que está tudo quieto demais, um péssimo sinal num lugar apertado e escuro como aquele. Uma das muitas gotícuals de suor em sua testa escorre pelo lado do olho mas ele não sente, ele sente apenas que algo desconhecido está por perto, enfrentar o desconhecido é uma tarefa árdua, até para um guerreiro como ele. Pode sentir a presença do inimigo, mas será atrás dele, será á frente, será no nível inferior do calabouço?

Ele aprendera a considerar todas as possibilidades, e realmente fizera isso, mas por mais que tivesse sido treinado para enxergar todas as situações possíveis, ele, sozinho nunca poderia se preparar para todas ao mesmo tempo, se fosse atacado nos flancos e pela frente seria seu fim, afinal ele só tinha um escudo. Mas a maior preocupação dele não era o perigo em si, e sim o que a derrota significava. Ele era um guerreiro, batalhar era sua vida, era o que ele fazia, era o que definia ele como pessoa, caso fracassasse, não importa o inimigo que tivesse enfrentando, isso significaria que ele fracassou como guerreiro, logo fracassou como pessoa, não cumpriu suas obrigações e se mostrou incompatente e fraco.

Era realmente muito para se ter em mente num corredor de pedras sujas onde não era possível ver além dos próximos dez metros. Mas apesar de não ver nada, de sentir cheiro de nada e de não ouvir nada, sua experiência em batalha havia desenvolvido um tipo de sexto sentido nele, que de vez em quando funcionava. E agora este sexto sentido estava apitando loucamente, e em sua mente ele sabia:

"Ha algo aqui, eu só não sei o que é..."

segunda-feira, 28 de março de 2011

Metáfora X


Existe uma fortaleza militar no meio de uma floresta. Essa fortaleza guarda um objeto de extremo poder, aquele que tiver controle sobre este objeto, terá poder sobre todo o país em questão. Todos os soldados que lá trabalham não medem esforços para proteger aquilo é de mais importante para sua pátria. Um dia um novo soldado foi mandado para lá, como é uma fortaleza secreta que protege um objeto que pode por em risco a segurança nacional, nada lhe foi dito. Apenas quando ele chegou lá, começaram a lhe explicar como as coisas funcionavam:

- Num raio de 1km em volta da fortaleza, a floresta foi queimada para nenhum inimigo ser capaz de ser esconder por perto. Areia foi colocada nesse perímetro para mostrar marcas de pneus ou pegadas. Debaixo desta areia, minas de alta potência foram enterradas.
- Hum, certo. - Respondeu o soldado, impressionado. - O que mais?
- Torres de vigia com guardas patrulham o perímetro 24h por dia. Se algo se mover, atiraremos. O mesmo vale para o espaço aéreo.
- Nossa! Mas e se for um aliado?
- Aliados comunicam sua vinda com antecedência. - Respondeu o homem com frieza. - E mesmo que cheguem aqui com prévio aviso e autorização, são revistados e monitorados, se agirem de forma suspeita, são executados imediatamente.
- Sem direito á julgamento? Ou ao menos um interroga...
-Não.
- ...
-As tropas foram treinadas para todo o tipo de ataque, se o alarme soar, todas as portas se trancam automaticamente.
- E quem estiver fora?
- Vai ter que contar com a sorte. - Diante de tal resposta, o soldado apenas engoliu seco e perguntou:
- Certo, mas onde vou ficar?
- Você vai guardar o objeto no décimo subsolo. A sala é protegida por senha, identificação de retina, voz e digital. Se qualquer uma destas verificações falhar, as portas do andar se trancam e gás venenoso é liberado.
- Nossa, mas e se o sistema tiver um problema...?
- O sistema não tem problemas soldado. As pessoas é que tem.
- Certo...
- Ninguém desce no último andar sem permissão prévia. Se alguém aparecer de surpresa, atire para matar, mesmo que seja o general.
- Céus! - Disse o soldado espantado com a frieza do sistema de segurança.
- Algo errado soldado? - Disse o homem se virando para ele.
- Não, não...
- Ótimo. Nossa conversa já foi gravada e o padrão da sua voz já foi enviado para os nossos computadores. Vamos descer e você vai cadastras sua retina e digital.
- OK. - Disse o soldado já ficando mais nervoso ainda, entrando no elevador.
Os dois desceram e quando a porta se abriu ele viu um corredor, com uma única porta no final, ao lado dela, um painél edigital.
- Pode ir soldado. - Disse o homem sem sair do lugar.
Já tremendo de medo, o soldado andou pelo corredor e digitou sua senha no painél, logo depois de confirmada, ele posicionou a retina para verificação, um pequeno lazer vermelho passou por ela e sua identidade foi confirmada, a cada etapa de verificação o soldado ficava mais nervoso, com medo de que algo no sistema falhasse e ele morresse sufocado. Como sua digital havia sido coletada durante a digitação da senha, só faltava a verificação de voz. Ele se aproximou do microfone e disse seu nome, com a voz trêmula de medo e gaguejando levemente.

Imediatamente após ele terminar de falar, o alarme soou. Uma sirene alta tocou e luzes vermelhar piscaram, dando um susto no soldado. Quando este se virou para trás viu vidros se abaixando como se fossem portas que corriam de cima abaixo. O homem no elevador na outra ponta balançava a cabeça negativamente, como quem está desapontado.

- MAS EU SÓ GAGUEJEI!!! - Disse o soldado desesperado vendo que o gás venenoso começara a ser libverado logo após os vidros encostarem no chão.
- A verificação de voz serve também para distinguir os fracos dos fortes. Você ficou nervoso demais ao saber que sua vida corria pergido, esse não é o tipo de homem com o qual trabalhamos aqui.
- ME DEIXE SAIR!!! EU FAÇO QUALQUER COISA!!! - Gritou o soldado batendo no grosso vidro.
- É isso que diria ao inimigo se fosse capturado? Nem imagino o que você revelaria de nós se fosse torturado.... tsc tsc
- EU NÃO...COF COF... - Sem conseguir terminar a frase, o soldado caiu de joelhos tentando inutilmente prender a respiração. Sua última visão foi a porta do elevador fechando.

Cada país tem uma fortaleza dessas. Claro que muito poucas tem um esquema tão forte de proteção, algumas delas não podem ser ao menos chamadas de fortalezas. Mas as maiores infelizmente tem que agir assim para continuarem mantendo sua segurança, pois é muito a perder. As que não tomam cuidado são infiltradas, espionadas e logo depois, devastadas. É um mundo cruel...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Metáfora IX


Elefantes tem uma ótima memória. E, á princípio, isto deveria dar-lhes vantagem sobre outros animais no mesmo meio ambiente que eles, certo? Pois afinal, memória não é nada mais do que o efeito de associação que todos os animais possuem para sobreviver. Logo, um elefante será mais eficaz em se lembrar que fogo queima, que um certo lugar é perigoso, que certas folhas são comestíveis, etc...

Em teoria seria assim, os elefantes á princípio vêm ao mundo munidos de um bônus em suas mentes, uma memória mais aguçada que lhes permitiria viver mais e melhor.

Mas na prática, não é sempre assim que acontece, pois o reino animal é impiedoso e pode usar inclusive suas fraquezas contra você. Associação é uma coisa perigosa e enganosa. Por exemplo...

Você amarra um elefante filhote pelo pescoço com uma grossa e resistente corda, ele tenta se soltar, faz força, mas descobre que não é suficientemente forte para arrebentá-la. Depois de fazer isso repetidas vezes, você espera que ele cresça e se torne adulto. Se você pegar a mesma corda e amarrá-lo do mesmo jeito, ele não vai tentar escapar, mesmo sendo capaz de arrebentar a corda com facilidade, ele não vai nem tentar, pois a experiência que ficou marcada foi a de tentar e não conseguir.

O que o coitadinho não sabe, é que ele cresceu, que ele mudou, que ele está mais forte e que hoje, arrebentar a corda seria fácil. Mas o efeito de associação trazido pela sua memória é muito forte, forte o suficiente para mantê-lo preso, pois a corda pode não ser mais forte que ele, mas o trauma é.

Outra grande desvantagem da memória é quando ela é usada por terceiros contra você. O adestramento de animais é feito assim, dando punições como consequência das faltas e recompensas como consequencia dos acertos. Se você quiser ensinar um elefante a fazer algo basta causar-lhe dor quando fizer algo errado e recompensá-lo se fizer certo. Em pouco tempo estará adestrado. Ele irá associar a ação que não deve fazer com o sentimento de dor, e não a fará mais, mesmo que você não esteja por perto para lhe castigar.

Quanto mais facilmente ocorre o processo de associação, mais facilmente manipulável o animal é para terceiros. Mas este processo é necessário para o aprendizado dele, para sua sobrevivência, se não souber que frutas comer e que caminhos evitar, como vai sobreviver e propagar seus genes?

É relamente uma pena que elefantes não sejam maiores que seus próprios medos, que não tenham capacidade de olhar para situações em seu contexto e perceber que podem ser diferentes daquelas do passado. É uma pena que eles associem dor e sofrimento a coisas completamente banais por mero acaso e ganhem traumas para a vida inteira que poderiam ser evitados com um mero processo de análise cética.

É uma pena mesmo...

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Metáfora VIII


O bardo viaja a pé nas vastas planícies. Até onde a vista alcança há apenas grama verde e lisa. O céu está aberto e o sol brilha com força, seu chapéu o protege mas o calor o faz suar. Porém, ele tem suprimentos e esta pode ser considerada a viajem mais tranquila que ele já fez.

Mas não foi sempre assim. Tempos tortuosos já abalaram o passado do bardo. Havia uma época em que a tempestade era forte e ele passava frio sozinho nas colinas enquanto trovões cortavam os céus e castigavam seus ouvidos. E houve outra em que ele o tempo estava nublado, o vento era frio, mas não chovia, pelo menos não nele. Ele via achuva de longe, alguns kilômetros á frente. Esses eram os piores dias. Piores até do que aqueles em que ele era pego na tempestade.

Porque quando o bardo viajava, o presente detinha apenas um terço de suas preocupações. O outro terço se voltava ao passado e a terceira parte de seus pensamentos era dedicada ao futuro. Isso era muito bom durante tempestades, pois ele sabia que elas logo passariam, ele se focava em sua caminhada e na idéia de que nenhuma tempestade dura para sempre. A calma futura aplacava a agonia presente.

Mas era chato não ver o horizonte, era chato não saber para onde se estava indo. Quando o céu ficava nublado e ele via a chuva desabar sobre as planícies na linha do horizonte ele sentia um certo mal estar, como um mal presságio. Era tão bom ver todo o caminho que ele iria percorrer, quando sua visão ficava obscurecida era como se ele perdesse o rumo, perdesse sua principal referência para a viagem, como se ele perdesse o motivo para viajar. A agonia futura atrapalhava a calma presente.

Seu companheiros diziam que era besteira, que ninguém faz uma viajem pensando em como está o tempo na linha do horizonte, mas sim em como está o tempo agora. Mas o bardo não conseguia pensar assim. Assim como ele ignorava tempo e espaço para se sentir alegre com um horizonte bonito, que ainda estava distante dele e que talvez não fosse tão bonito quando ele chegasse, ele fazia o mesmo quando chovia, a chuva podia estar distante, borrando o céu de cinza apenas no limite da visão, mas ele sentia como se o frio estivésse ali, ele podia sentir as gotas frias atingindo seu rosto, algumas vezes ele até segurava seu chapéu por reflexo, para que este não voasse com o vento que provavelmente estaria soprando no olho daquela tempestade longínqua.

E ele ficava ali, parado. Enquanto chovesse no horizonte ele não andava. Ficava olhando segurando o seu chapéu com as duas mãos como um menino assustado, apenas depois que o céu estivesse limpo e o contorno das planícies fossem visíveis de novo, apenas quando fosse possível ver o azul do céu se encontrando com o verde da terra, ele seguia em frente. Engraçado, se a mesma tempestade desabasse sobre ele, ele continuaria corajosamente, não importa a força dos ventos. Mas se algo obscurecia seu futuro, ele se paralizava, ficava inquieto e apreensivo, olhando as núvens distantes tapar sua visão perfeita de futuro. Se sentindo perdido, mesmo sabendo que seu horizonte estava ali, apenas não era visível.

Ele ficava surpreso por saber que haviam pessoas que realmente preferiam o tempo nublado. Não gostavam do calor do sol. Gostavam do céu fechado e do horizonte tapado pelo véu cinza da incerteza. Para essas pessoas, era excitante não saber o que o futuro guardava para eles, era bom sentir aquele medo de ser pego por uma chuva á qualquer momento. Eles diziam que isso fazia você aproveitar melhor o presente, pois nunca sabia se estava prestes a olhar para uma tempestade. Nunca se sabia quando você estava prestes a entrar numa tempestade.

"Que mentes doentias"...pensava o bardo, precisam de desgraça eminente para dar valor ao belo. Precisam de incerteza e insegurança para sentirem que estão numa aventura, precisavam acorrentar as esperanças e sonhos de um horizonte limpo e simétrico para dar espaço á segurança da caminhada. Era claro que o bardo sabia que por mais que o horizonte estivesse bonito, ele podia mudar, sabia que uma tempestade podia vir, sabia que tudo podia acontecer, mas em que isso impedia uma pessoa de ser otimista e esperançosa? Quanto ás chuvas não podemos fazer nada, a não ser levar uma capa. Mas achar que a vida se vive como se amanhã fosse sempre chover? Caminhando sem olhar para frente e suspirar de alegria e inspiração? Para o bardo isso não era viver, era apenas existir.

Pois para ele vida e sonho eram duas faces da mesma moeda. O hoje e o amanhã eram duas partes de um mesmo mundo. A viajem de agora e o horizonte são extensões das mesmas planícies. Andar com uma capa era uma coisa, mas suprimir seus sonhos a ponto de preferir céu nublado á céu aberto? Loucura. Isso não fazia sentido para sua mente criativa.

Em meio a sua reflexão, olhou de novo para o horizonte. Linhas curvas lembravam um Yin-Yang verde e azul dividindo o céu e a terra. Enquanto o sol fazia a fina grama brilhar e o vento fazia ela balançar. O tempo nunca esteve tão bom, o horizonte nunca esteve tão limpo e tão belo. Ele nunca esteve tão otimista em sua viajem. Até porque ele contava com uma ajudinha a mais para lhe manter aquecido em tempos de tempestade ou em noites frias. Havia um fogo adicional a seu favor, o do pássaro que ele sempre tentou dominar, mas que voltara para iluminar seu caminho e aquecer seu corpo...

sábado, 25 de setembro de 2010

Metáfora VII

Uma guerra começou. Os dois lados estão se armando, o número de perdas já é enorme, mas cada um só vê suas próprias razões. Cada um só quer saber de se dar bem e conquistar.

Ninguém sabe quem começou, mas todo mundo continua, cada um faz sua generosa contribuição de ódio e remorso para continuar o ciclo vicioso destrutivo.

Eles machucam elas, elas machucam eles, não necessáriamente nessa ordem.

Um jovem civil sai nas ruas em paz, com uma bandeira branca, então, o pobre coitado é atingido por uma atiradora. Volta para casa revoltado com a dor e decide se alistar, decide entrar para a guerra, afinal qual é a utilidade de se tentar a paz? Ele se arma e, influenciado por outros soldados mais experientes, vai moldando uma mente onde o ganho pessoal justifica qualquer ação, que as vontades dele, ou deles, são mais importantes e que, se ele não atirar, alguém atira nele.

E assim mais um soldado é formado. Ele vai formar outros soldados a partir de civis revoltados com a guerra também. e isso também acontece do lado de lá. E é exatamente do mesmo jeito. Em ambos os quartéis generais, se ouve exatamente o mesmo discurso:

"Isso é uma guerra, aqui a lei que prevalece é a do mais forte, não tenham piedade do inimigo, pois ele não terá de vocês."

As pessoas se nutrem umas com o ódio das outras, agregam frustrações alheias ás suas próprias e vão á campo acreditando fielmente que estão fazendo justiça, que estão vingando os inocentes feridos pelo inimigo. E quando vencem uma batalha ficam felizes e se sentem honrados, mas isso só dura algum tempo, logo logo outra pessoa morre ou se fere e os soldados se dão conta de que venceram a batalha mas não a guerra. E começa tudo de novo.

Mas existem pacifistas, óbvio eles tem que ficar fora do caminho das balas, eles não conseguem mudar muita coisa, mas o que importa é a intenção. Eles ouvem diáriamente que seu ideal de paz é impossível, que as coisas sempre serão assim. Mas a mente do líder e do sábio não se foca no mundo como ele é, e sim como ele deveria ser.

E a guerra continua, de vez em quando uma bala perdida acerta um civil, mas se for um pacifista, ele vai se retirar humildemente e reconhecer que não deveria ter se exposto ao perigo, não vai culpar o atirador, pois sabe que este não sabe o que faz. Mas se for um pobre desavisado ou desavisada, muito provavelmente vai querer se alistar para dar o troco.

Assim como em toda a guerra, só há danos e prejuízos.
Assim como em toda a guerra, ninguém fica realmente feliz durante muito tempo.
Assim como em toda a guerra, todo mundo acha que está certo.
Assim como em toda a guerra, só há perdedores.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Metáfora VI

Existem muitas técnicas orientais de luta que, para desenvolver a resistência dos ossos (Muay Thay) ou dos músculos (Judô), uitlizam exercícios extremamente dolorosos que submetem o lutador a dores extremas e levam o corpo dele ao limite para que este possa desenvolver maior força. Essas técnicas sempre funcionaram a olongo dos milhares de anos que elas existem, e continuam funcionando hoje.

Lá está o iniciante de Muay thai extremamente empolgado para aprender, sonhando em se tornar um lutador profissional um dia, sonhando em entrar para os melhores do mundo, sabe que vai ter que suar muito mas está otimista e disposto a fazê-lo. Disse que era isso que ele queria, seus amigos falaram que o treino era difícil, mas ele estava pronto.

Isso é porque ele ainda não começou o treino de verdade.

No Muay Thai, para desenvolver a resistência do osso da canela, o aprendiz tem que condicioná-la através da técnica de calejamento, na qual é preciso fragmentar o osso levemente para que novas camadas de cálcio sejam naturalmente produzidas pelo corpo em cima das danificadas, fazendo com que, a longo prazo, o lutador tenha ossos muito mais resistentes por causa das camadas de cálcio adicionais.

Aí o aprendiz pensa, tudo bem, é um sacrifício que vale apena! E vai todo feliz fazer esse negócio de fragmentar o osso.

Ele vê que terá de dar canelada (com vontade) numa tábua de madeira grossa e dura, á princípio ele hesita, aquilo deve doer muito, mas se é um passo no caminho para a evolução, tudo bem!

E ele dá as caneladas.

Em um minuto ele está vendo estrelas de tanta dor. O coitadinho realmente não fazia idéia do quanto doía, ele vê a canela roxa, até sangrando em alguns pontos e se pergunta como os profissionais aguentaram o treino. Á princípio sente uma raiva descontrolada de tudo (até da tábua), sente ódio por ter escolhido aquela arte marcial, depois percebe que sua raiva esta crescendo porque ele não tem a quem culpar se não a si mesmo. Ele começa a repensar se quer realmente aquilo, se está realmente disposto. O primeiro pensamento é: "eu não vou aguentar isso por muito tempo."

Um de seus amigos diz que desistiu, que a dor não vale a pena, que há outras habilidades para se desenvolver que não doem tanto, outro diz que é assim mesmo, que passou por isso e com o tempo ficamos mais resistentes a dor. Ele ouve um, ouve outro, mas está difícil pensar em meio a tanta dor.

Ainda de pé, com a cabeça erguida e com a postura que um homem tem que ter, o aprendiz olha para a tábua manchada com seu sangue tenta raciocinar em meio a sangue e suor. É difícil pensar no momento de dor, principalmente se o assunto sobre o qual você está pensanodo é a própria dor, é difícil refletir olhando para o seu próprio sangue!
Se ele parar, poderá evitar a dor, e realmente existem muitas outras coisas para fazer além de Muay Thai, mas será que o treino de todas é indolor? E se ele não se acostumar com a dor, o que será dele nos momentos em que ela vier? (pois ela virá, mais cedo ou mais tarde).

Se ele continuar, não sabe se vai conseguir aguentar o treino até o fim, e corre o risco de se machucar sériamente, inclusive de prejudicar seu corpo permanentemente, sua perna pode nunca mais ser a mesma, ele pode ter contusões sérias durante as lutas e, no pior dos casos, morrer. Pode perder a vida na tentativa de se tornar o melhor, na tentativa de simplesmente evoluir.
Mas ele mesmo disse que queria, quando decidiu que terinaria Muay Thai e seus amigos disseram: "Mas você sabe a desvantagem não sabe?" E ele disse: "eu sei, mas estou pronto." mas uma coisa é ouvir a frase "fragmentação do osso" e outra é dar um chute numa tábua de madeira. Você não entende uma coisa através da outra assim fácil, é preciso passar pela experiência.

A dor maior não é a da canela, é a do orgulho, ele fez a escolha, ele disse que aguentaria, agora, independente de suas indecisões, dores, dilemas e pensamentos, ele tem que continuar. Não porque quer ser o melhor, não porque quer ser campeão, agora que começou o treino ele sabe o abismo que existe entre ele e os mehores. Não vai mais treinar para ganhar campeonatos ou dar aulas, vai treinar porque ele é um homem, um homem que disse que conseguiria.

E ai dele se chorar no processo. É melhor desmaiar de dor do que chorar por causa dela, não pode mostrar que não está aguentando, ele sabe que o arrependimento momentâneo e o receio de dar mais chutes é um problema dele, ele não pode culpar a ninguém pela dificuldade do treino ou sua falta de força.
Então, em meio á uma dor indescritível, ele olha para a tábua, respira fundo, fecha os olhos e se prepara...
...para o próximo chute....