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quinta-feira, 19 de julho de 2012

Sobre a "Friendzone"



Um conceito criado por homens para denominar uma situação onde a mulher com quem eles presumivelmente querem se relacionar não os vêem nem os tratam de maneira romântica/sexual, não os considerando assim, potenciais namorados/ficantes/etc... deixando-o numa zona com intimidade e proximidade de amigo, mas sem a conexão física de uma relacionamento passional.

Existe um tipo de receio por parte dos homens em acabarem caindo, ou serem deliberadamente colocados nessa zona, pois isso configuraria uma relação platônica onde ele não se vê com nenhum tipo de vantagem. Em alguns casos, a reação masculina chega a ser de raiva, achando que a friendzone é uma injustiça emocional cometida contra os solícitos e atenciosos homens que perdem lugar para aqueles que não se esforçaram tanto ou simplesmente não ligam tanto para os tão complicados sentimentos femininos.

Tudo isso parte do pressuposto, é claro, de que há o interesse passional/sexual por parte do homem ao iniciar a aproximação que leva ao "friendzoning". Caso não haja atração, não há expectativas de se criar qualquer tipo de relacionamento, e se não há expectativas, não há frustração em se perpetuar uma amizade sem nenhum tipo de conexão passional/sexual. E assim o caso está encerrado.

Mas caso haja esse interesse, existem algumas observações a serem feitas, como por exemplo:

1. Homens sem iniciativa estão fadados á friendzone.

Quando homem e mulher (solteiros) começam a se aproximar e passar mais tempo juntos e a criarem afinidades, eles costumam agir de maneira diferente para elevarem a relação á um próximo nível. A mulher geralmente dá sinais de sua disponibilidade através de comentários e certas atitudes que denotam uma espécie de "sinal verde" para o homem avançar. Logo, espera-se que o homem "avance".
Muitos homens que reclamam de terem sido jogados para escanteio só estão lá por uma questão de timing, poderiam ter conseguido namoradas, ficantes ou sexo caso tivessem dado um passo á frente na hora certa e aproveitado os momentos propícios ao flerte que inevitavelmente permeiam a relação homem-mulher. Homens que não conseguem lidar com a própria insegurança e medo de rejeição serão naturalmente ultrapassados pelos mais seguros, que não necessariamente vão precisar construir a mesma afinidade que os seus predecessores. O que os deixa indignados e com o senso de injustiça cometida por parte da mulher, mas eles se esquecem que...

2. Ser legal e ser atraente são duas coisas diferentes.

Solicitude, compreensão e simpatia são boas qualidades que realmente tornam qualquer relacionamento mais fácil. Mas elas não necessariamente tornam um homem atraente. Muitos deles acham que por estarem dispostos a fazer favores, ouvir e investir tempo e dinheiro em uma mulher irá fazê-los, automaticamente potenciais parceiros, apenas pelo fato de que eles se sentem merecedores dessa posição. Mulheres não são obrigadas a se sentirem atraídas por homens indulgentes ou compreensivos, tampouco tem que compensar simpatia com sexo ou atração física. Ser uma pessoa educada cria nos outros o compromisso social de serem igualmente educados, nada mais. Os fatores que fazem uma mulher se sentir atraída costumam estar em dissonância com toda a insegurança, medo e passividade de um sujeito que não tem coragem de tomar a iniciativa. Mas admito que existem homens que sabem disso e ainda sim foram colocados na friendzone, e alguns desses casos geralmente se dão porque...

3. Nem toda mulher sabe o que quer (e nem toda mulher presta)

Muitas das jornadas que terminam na friendzone são marcadas por conversas onde a mulher passa um tempo considerável enaltecendo as qualidades masculinas citadas no item anterior, muitas vezes comparando o homem com quem confidencia suas mágoas com seus ex-namorados/ficantes/etc... Criando nele uma sensação de que ele é simplesmente o cara perfeito para ela, e que a melhor coisa que ele tem a fazer é tentar levar a amizade á um próximo nível. Admito que todo o homem tem de estar ciente de que ser virtuoso e ser atraente são coisas distintas, mas não posso negar que muitas mulheres usam homens pacientes e solícitos como muletas temporárias que descartarão assim que não forem mais necessários para a manutenção do seu estado emocional. Algumas mulheres fazem isso sem perceber, apenas por medo de sair da zona de conforto onde recebem atenção sem precisar se comprometer, e isso é apenas um efeito colateral da imaturidade ou falta de autonomia emocional. Mas outras calculam o processo de friendzoning com precisão decimal, vêem o homem se apaixonando aos poucos e não dizem nem fazem nada para frear suas expectativas, mesmo sabendo que futuramente não serão correspondidas. Essas são as que não prestam, pois constroem seu ego em cima de frustração alheia. E mesmo que hajam mulheres assim o homem tem que saber, por antecipação, que...

4. Amizade entre homem e mulher não é pra qualquer um

Ainda existem os casos em que o homem cria intimidade com a sincera e honesta intenção de apenas fazer uma nova amiga. Mas com o passar do tempo as afinidades vão os aproximando e paixão brota, deixando-o numa situação complicada de ter que lidar com novos sentimentos de apego que geram ciúmes e saudades. Logo ele tem de tomar a difícil decisão de tentar uma abordagem e arriscar a qualidade da amizade (ou a própria existência da mesma) ou então engolir e suprimir seus sentimentos, tentando fazê-los morrer por inanição. Auto-conhecimento é uma peça chave nas relações humanas e se você é um homem que não consegue separar amizade de atração, tenha consciência dos riscos que o cultivo de uma amizade com mulher pode trazer. Muitos homens se esquecem que boas amigas e namoradas tem, invariavelmente, muitas qualidades em comum, o que exige uma mente madura e sensata para conhecer uma boa amiga e não vê-la como boa namorada.

Com exceção do número 1, tudo que foi citado aqui se aplica igualmente para os dois lados, pois existem casos de mulheres deixadas na friendzone também, amizade entre homens e mulheres solteiros estará sempre sujeita á esse tipo de peculiaridades. Ter uma amizade com uma pessoa e estar envolvido passionalmente/sexualmente com outra é relativamente fácil, mas todos os homens e mulheres deveriam estar plenamente cientes de que quando não é esse o caso, amizade entre pessoas do sexo oposto estará sempre sob a sombra de uma potencial tempestade de sentimentos que nem todos conseguem administrar. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Sobre bancar a difícil




Primeiramente, digamos que uma mulher atribui a si mesma um valor X baseado no quão atraente, madura, interessante e talentosa ela acha que é. Essa mulher, diante de uma abordagem masculina vai, naturalmente, excluir qualquer candidato que seja avaliado como sendo menor que X. Isso é normal, se chama amor próprio, é um tipo orgulho saudável que previne que você se humilhe. Todos temos o direito de estabelecer nossas notas de corte quando o assunto é relacionamento, é uma questão inteiramente pessoal. Não é problema seu nem meu se uma mulher decidir que só quer pegar modelos, ou rockstars, ou caras que andam de Camaro amarelo (ou uma utópica combinação dos três). Ela tem o direito de ser o quão seletiva ela quiser, o quão difícil ela acha que tem o direito de ser.

Mas uma mulher difícil, e uma mulher que banca a difícil são coisas diferentes.

Existem mulheres que acham que a melhor maneira de se destacarem, de ganharem vantagem sobre as concorrentes, de chamarem atenção, é de bancar a difícil, se mostrar desinteressada e desapegada. Pensam que simular um estado de apatia e indiferença é a melhor maneira de se responder a uma abordagem masculina. Que os homens serão atraídos magneticamente por um poker face combinada com tiradas desnecessárias assim como um gato tenta pegar o laser na parede.

Ser difícil não torna uma mulher interessante. Ser engraçada, inteligente, talentosa e bem humorada torna uma mulher interessante. Nenhuma mulher ganha mérito por sentar lá e não fazer nada, nenhum homem se derrete por apatia e nariz empinado, e se o faz, ainda não é um homem. As mulheres devem se destacar pelas suas qualidades, suas virtudes, e não pela sua capacidade de bloquear com quem está tentando interagir com ela.

O inconsciente feminino está cheio de premissas estranhamente distorcidas sobre homens e algumas pensam que essa é a melhor maneira de se filtrar os pretendentes. Que, uma uma vez que elas bancarem a difícil, apenas os homens mais corajosos, extrovertidos e seguros irão lhes alcançar. Acham que se construírem paredes altas o suficiente em volta de si, apenas os mais fortes conseguirão escalá-la para chegar até ela.

Isto está errado porque bancar a difícil parece ser uma boa ideia partindo da premissa que os homens vão inferir que se você age como a última coca-cola do deserto, você deve ser a última coca-cola do deserto, logo vão te desejar. E se você não for, os homens corajosos, extrovertidos e seguros que ultrapassaram sua enorme camada de resistência vão encontrar uma pessoa comum, que não tinha motivos para ser tão seletiva e podem acabar se decepcionando com a propaganda enganosa.

A mulher que se dá o valor X, mas acha que tem se fazer de difícil para que os homens achem que ela é 2x está se supervalorizando da pior maneira possível, está declarando que não se acha tão boa assim, mas que quer homens corajosos, extrovertidos e seguros. Ora, que direito tem ela de exigir dos outros mais do que ela se acha capaz de dar?

Sou a favor do amor próprio e da nossa independência de decidir o que é melhor para nós. Mas colocar num produto uma etiqueta com um preço duas vezes mais caro que o normal só vai atrair os consumidores que acreditam que preço é sempre diretamente proporcional á qualidade do produto. Os consumidores inteligentes vão se perguntar: "por que eu pagaria tão caro por uma dessas?"

terça-feira, 17 de julho de 2012

Pandora



Houve um tempo tempestuoso marcado por agonia
Onde o limite entre dor e deleite, já não mais se distinguia
Enclausurado no olho gélido de um grande furacão
Peguei a caixa e senti o peso da minha última decisão

Abri sua tampa já sabendo as desventuras que estavam por vir
E chorei enquanto a observava sugar o mundo que construí
O mundo que antes aparentava tamanha beleza e constância
Agora era frágil e pálido, como um sonho bobo de infância

Desde então mantenho-a fechada, escondida em meus aposentos
Longe da minha vista, para não despertar meus lamentos
Pois ainda receio o retorno das alegrias e dores de outrora
Caso eu ouse abrir a caixa, a caixa preta de Pandora.

sábado, 14 de julho de 2012

Metáfora XXI



O limbo é como que um "prêmio de consolação" do catolicismo para aqueles que não são bons o suficiente para irem para o céu ou maus o suficiente para irem para o inferno. Uma espécie de escala que as almas tinham que fazer antes de adentrarem nos portões do céu. Em muitos escritos bíblicos o limbo é descrito como um lugar onde não há penas ou purificação a se realizar, é uma lugar em que se vive em plena felicidade natural sem, porém, ter a graça de Deus. Ou seja, sem a felicidade eterna e verdadeira que se aguarda no pós-morte.

Então resumindo, você vive feliz, mas não TÃO feliz quanto poderia. Você não sofre tanto quanto poderia estar sofrendo, mas em contrapartida, a felicidade suprema está reservada á aqueles que estão no andar de cima. Você está, para todos os efeitos, na média. É exatamente onde a maioria das pessoas se encontra, afinal esse é o conceito de média. Falta-lhe o essencial para desfrutar da felicidade verdadeira, o que você tem é apenas um tipo de paz estática, uma serenidade razoavelmente satisfatória.

E como o ser humano tende a olhar não para aquilo que tem, mas para aquilo que lhe falta, o limbo presumivelmente proporciona uma agonia muito grande a seus habitantes, por saberem que não estão lá nem cá. Estão felizes, sãos e em paz o suficiente para se dedicarem á pensamentos, filosofias e teorias acerca do quão boa a vida poderia ser, caso eles estivessem no paraíso. O tempo semeia infelicidades na mente ociosa, e logo o limbo é mais um castigo do que um lugar que se possa chamar de "felicidade eterna". Cheio de pessoas que, se tivessem feito um pouco mais, ou tivessem dado um pouco mais de sorte, estariam muito melhor do que estão agora. Um lugar cheio de pessoas que não estão exatamente completas, felizes e plenas. Mas estão ali tentando tapar aquele buraco com outras coisas, tentando ver se se distraem do fato de que elas não estão na terra prometida.

O único sofrimento no limbo é o psicológico, o da sua própria mente, pois afinal, em nenhum lugar das escrituras é dito que suas necessidades emocionais se anulam com a ida ao outro mundo. E deve ser realmente irritante não poder reclamar das dores do inferno e não poder usufruir das bençãos do paraíso. Deve ser chato ficar em um estado de torpor emocional, onde não há alegria verdadeira nem sofrimento verdadeiro, onde tudo o que você pode fazer é olhar para aquele vazio e tentar, inutilmente, esquecer que ele está ali.


sexta-feira, 29 de junho de 2012

O que é justo


Nosso ego molda, através da nossa necessidade de validação, uma noção muito distorcida de justiça. Por vezes lidamos com os outros e tentamos ser virtuosos, sábios e pacientes. Diversas vezes nos esforçamos em prol da manutenção de uma relação regida por regras já estabelecidas pelas nossas mentes limitadas, e enquanto suamos, vemos o descaso alheio com aquilo que tanto prezamos. Vemos algumas pessoas que simplesmente não vêem, ou se vêem não se importam com nosso esforço, pelo simples fato de verem e sentirem o mundo de um modo diferente.

E aí, nosso ego diz:

Ora, isso é um ultraje! Como os outros ousam não pensar em nós? Como eles se atrevem a dar menos valor do que nós á algo que, na nossa visão individual, é de suma importância? Na verdade, como eles tem coragem de simplesmente PENSAR DIFERENTE?
Não, isso não pode ser. Somos mártires! Aguentamos até o limite de nossa paciência, nos doamos sem em nenhum momento pensarmos em nós mesmos, certo? Como pode alguém não reconhecer nossa abnegação? Como é possível que todos não estejam em perfeita sintonia com a nossa necessidade de sermos reconhecidos por favores que ninguém nos pediu para fazer? Temos todo o direito de exigir que justiça seja feita, pois nós somos a vítima nessa situação.

A sensação de injustiça corrói de dentro para fora, nos deixando sem entender como aquelas pessoas que desrespeitam nossas necessidades emocionais ficam impunes. Chegamos ao ponto de desejar mal àquelas pessoas que nos frustraram só para satisfazer a nossa doentia noção de justiça, ou melhor a do nosso ego. E quando esse mal chega a acontecer, algumas vezes chegamos ao ponto de regojizar a desgraça alheia, sendo invadidos por um tipo bizarro de felicidade que parece dizer: "Pronto, agora que você sofreu também, estamos quites."

O ser humano já tem uma tendência natural á achar que o próprio sofrimento é maior do que o dos outros, somos biologicamente deficientes quando o assunto é mensurar sofrimento, sempre achamos que o nosso é maior, mais grave e, portanto, merece mais atenção e nos dá uma desculpa natural á agir como vítimas e alimentar ódio pelos supostos causadores dos nossos infortúnios. Nos vemos algumas vezes como heróis por aguentar tamanho sofrimento, e como esforço não se mede, se percebe, a frustração de ver alguém simplesmente dar ás nossas necessidades menos atenção do que achamos que elas merecem é muitas vezes o motivador da nossa amargura.

Todos sofremos, mas como como somos melhores advogados do que juízes, acusamos os outros e defendemos á nós mesmos com tudo que temos para garantir que as nossas dores sejam sempre compreendidas, nossas necessidades sejam sempre atendidas e nossos valores sejam sempre respeitados, e mesmo pensando dessa maneira mesquinha,  alguns de nós ainda acham que as pessoas deveriam estar gratas pois eles já estão sendo muuuuito pacientes e sensatos de não estourar de vez e atingir o fundo do poço do egocentrismo que é tentar, de algum modo, fazer justiça com as próprias mãos.